Dietas alternativas para gatos e cães

As dietas alternativas para gatos e cães resulta da preocupação do tutor de expressar carinho e preocupação com a saúde do seu animal. O tutor tende a aplicar os mesmos critérios na escolha da ração para o seu companheiro de quatro patas que aplica para si.

Mas serão estes métodos adequados e quais serão as alternativas às rações comerciais?

Lista de ingredientes

A escolha da ração é influenciada pelas mesmas regras sociais e culturais dos donos. Ou seja, o que é ou não considerado um alimento, ou um alimento de qualidade, depende da interpretação do dono. No entanto, isto nem sempre reflete o valor nutricional do alimento nem a qualidade final da ração.

Por exemplo, certos órgãos internos são consumidos em alguns locais (por exemplo, as “tripas à moda do Porto” em Portugal) enquanto para outras populações recusam-se a incluí-los na sua alimentação. A inclusão destes subprodutos da carne na composição da ração é muitas vezes utilizada como um fator de exclusão pelo dono.

No entanto, os subprodutos animais utilizados em rações em Portugal são peças provenientes de animais saudáveis e que apenas não entram no consumo humano por falta de mercado. Ainda mais importante é o alto valor nutricional destes subprodutos, especialmente da inclusão de órgãos internos.

Adicionalmente, o valor nutricional de cada ingrediente pode variar com o lote, tornando a avaliação da sua qualidade ainda mais complicada para o consumidor final. Assim, a lista de ingredientes torna-se uma ferramenta inadequada para a avaliação da qualidade de uma ração.

Como avaliar a qualidade de uma dieta para cães e gatos?

Uma alternativa à simples lista de ingredientes ou de nutrientes é a menção da realização de testes sobre a ração final. As marcas mais baratas calculam a tabela nutricional tendo em conta o valor nutricional individual dos ingredientes, antes do processamento. Assim, durante a produção da ração poderá haver variação no conteúdo nutricional.

Geralmente, marcas mais prestigiadas realizam análises após a produção ou testam a sua composição fornecendo a dieta a animais e registando a sua adequação. Desta forma, o dono poderá estar mais confiante acerca da qualidade nutricional da dieta. Normalmente, estas apresentam menção a estes testes no rótulo.

Relação afetiva

A dieta escolhida para o animal também pode funcionar como forma de identidade de grupo ou de mostrar afeto. Por exemplo, se o dono não consumir carne de porco pode achar inadequado também o seu animal ingerir esta carne.

O alimento também é utilizado como forma de demonstrar afeto. Por vezes, este hábito resulta em obesidade, trazendo graves problemas para a saúde animal. No entanto, os donos sentem-se reticentes em restringir esta atividade por ser uma forma de demonstrar carinho pelo animal.

A dieta também fornece ao dono uma sensação de controlo sobre a saúde do seu animal, afetada por inúmeros fatores. Especialmente em casos graves ou incuráveis, os donos procuram todas as formas ao seu dispor para tentar controlar a doença e melhorar a saúde do animal, por vezes levando-os a escolher dietas alternativas.

As dietas alternativas ou alimentos alternativos

A preparação das dietas alternativas resulta então destes fatores: a identidade de grupo, o fator social e cultural, o laço afetivo entre o dono e o animal e a preocupação com a saúde. Assim, as dietas alternativas para gatos e cães mais comuns são as dietas caseiras, dietas naturais e orgânicas, dietas vegetarianas e dietas de carne crua.

Dietas caseiras

As dietas caseiras resultam da preocupação sobre a adequação nutricional ou ingredientes utilizados nas rações comerciais. As dietas caseiras ainda fornecem ao dono uma forma de se sentir envolvido emocionalmente com o seu animal ou de lhe trazer conforto ao pensar que trará benefícios no controlo de certas doenças.

Esta dieta requer do dono grande investimento de tempo (e dinheiro) e procura de conhecimento especializado (médicos veterinários nutricionistas) para a formulação das receitas. Estudos concluíram que muitas das receitas usadas em dietas caseiras não forneciam a nutrição adequada a cães e gatos.

Para esta variação ainda contribuem a variação nutricional dos ingredientes (ex. um bife pode ter mais ou menos gordura) e a rigidez com que o dono segue a receita. Nestes casos, consultas para avaliar o estado de nutrição do animal devem ser realizadas pelo menos duas vezes ao ano.

Dietas naturais e orgânicas

Nestas rações, os donos procuram controlar o tipo e origem dos ingredientes, pensando que podem estar envolvidos no aparecimento de cancro, alergias alimentares ou doenças autoimunes, ou que possam ter contaminantes perigosos com origem em alguns ingredientes (por exemplo, a inclusão de cereais nas rações).

Muitas preocupações relacionam-se com os aditivos necessários à conservação da dieta, ou à sua confusão com vitaminas ou minerais adicionados. A conservação da dieta é essencial, protegendo-a contra a degradação e contra o desenvolvimento de microrganismos perigosos.

Por exemplo, os antioxidantes são conservantes essenciais, pois protegem a gordura da ração de oxidar (de ficar rançosa). Antioxidantes naturais, como a vitamina C (ácido ascórbico), são utilizados nestas dietas mas têm uma ação mais limitada do que os antioxidantes químicos. Por isso, é importante que os donos que escolham estas dietas comerciais estejam atentos à data de validade e deterioração da ração.

Dietas vegetarianas

As dietas vegetarianas em animais de companhia estão relacionadas com as crenças religiosas, ética e preocupações com a saúde. No entanto, formular uma ração vegetariana para animais carnívoros é complexo. Muitos nutrientes essenciais ao cão e gato só são encontrados em alimentos de origem animal, tendo alternativas naturais limitadas, como a taurina, vitamina A e cobalamina.

Existem algumas rações comerciais vegetarianas, especialmente para cão. Isto porque na evolução do cão houve adaptações para os permitirem alimentar-se de alimentos não carnívoros consumidos por humanos.

Uma avaliação da adequação nutricional destas rações comerciais, bem como de dietas caseiras vegetarianas, revelou que não eram adequadas ao perfil nutricional do animal. Por isso, animais que sigam esta dieta devem ser seguidos regularmente por um médico veterinário.

Dietas de carne crua

As dietas de carne crua têm origem no conceito de simular o estado selvagem do animal e procurar uma dieta com benefícios para a saúde. No entanto, como já mencionamos, quando o cão divergiu do lobo selvagem, tornou-se mais capaz de processar outros alimentos que não carne, como as fontes de carboidratos.

Os benefícios desta dieta na saúde animal ainda não foram provados. No entanto, os seus riscos já começam a ser conhecidos. Para além da dificuldade na preparação da dieta, tal como em qualquer dieta caseira, esta ainda apresenta perigos como ainadequação nutricional e infeções gastrointestinais.

Animais com maiores necessidades nutricionais estão em maior risco de sofrem de uma má formulação de dieta de carne crua. Por exemplo, cachorros alimentados com carne crua desenvolveram osteodistrofia devido à inadequação da dieta.

Para além do risco de perfuração e obstrução causado pela ingestão de ossos, ainda há o risco grave de contaminação. As carnes para consumo humano contêm pequenas quantidades de bactérias patogénicas que são eliminadas na cozedura. Ao fornecer estas carnes aos animais de companhia, estamos a expô-los a estes patogénios, como a Salmonella.

Os animais podem ficar infetados, sofrendo de gastroenterite, ou podem tornar-se portadores assintomáticos, libertando o patogénio sem sofrer doença. Portanto, estes animais tornam-se perigosos para a sua família, facilitando também a infeção dos donos.

Tutores que decidam seguir este regime alimentar devem ter precauções extra na manipulação da carne crua, limpeza dos locais de alimentação, interação com o animal e remoção das fezes potencialmente contaminadas.

Referência: Michel (2006)

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